Considerações sobre a Língua Portuguesa e o Acordo Ortográfico Parte II

Um pouco de história sobre o Acordo Ortográfico

Em 1911, foi estipulado o primeiro modelo ortográfico de referência quer para as escolas e universidades, quer para as publicações, destinado a todos os países de língua portuguesa — o chamado Formulário Ortográfico — que não foi totalmente adoptado pelo Brasil, dando origem a um debate e negociação que se prolongou por décadas, na tentativa de obter um tratado normativo internacional de ortografia que fosse aceite por todos os intervenientes, unificando as várias variantes escritas.

Neste âmbito, foi assinado um acordo inicial em 1931, ainda com divergências de interpretação entre Portugal e o Brasil.

Em 1945, foi assinado um novo acordo que visava finalmente unificar a ortografia em todos os países de língua portuguesa, incluindo o Brasil. O Brasil assinou o acordo, porém, na prática, e ao contrário do que se verificou em Portugal, não o aplicou, continuando a seguir o disposto em acordos anteriores.

Uma vez mais, num debate que prometia ser interminável entre os representantes oficiais dos países de língua oficial portuguesa — Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe * — as negociações para chegar a um consenso prolongaram-se por décadas, com algumas revisões acordadas nos anos 70.

Na década de 90 do séc. XX, fruto dos esforços da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa, foi finalmente assinado o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990.

Obviamente, como não se trata de uma reforma que pudesse ser aplicada da noite para o dia, foi estipulado um período de transição durante o qual tanto as novas regras como as anteriores eram válidas, sendo que o Acordo Ortográfico apenas entraria em vigor em 2009.

Angola e de Moçambique são, actualmente, os únicos países signatários que ainda não procederam à aplicação da norma.

O Novo Acordo Ortográfico

O novo acordo ortográfico, também conhecido como AO, é nada mais que o acordo de 1990 referido acima, mas que foi aprovado apenas em 2009.

O adjectivo “novo” prende-se com o facto de que durante as quase duas décadas de esperada “transição”, na prática, a esmagadora maioria das pessoas não utilizava a nova norma. Nas escolas, a maioria dos professores continuaram a ensinar de acordo com as normas anteriores — aquelas que acarinhavam e que tinham aprendido; a TV e as revistas e jornais também teimaram em não adoptar as mudanças; grande parte dos livros continuou a ser editada ao abrigo das regras “antigas”.

A ortografia anterior estava enraizada na mente e no coração das pessoas, imortalizada num sem-fim de páginas de livros, de contemporâneos a clássicos, que povoam as prateleira dos amantes da literatura dos falantes de português, resultando num grande choque para um considerável número de pessoas quando as regras se tornaram obrigatórias.

É verdade que o novo AO visa simplificar a língua e não complicá-la. Supostamente, quanto mais próxima a língua escrita for da língua falada mais fácil se tornaria a sua aprendizagem. Numa (vã) tentativa de aproximar a forma como escrevemos da forma como falamos, dá prioridade à fonética sobre a grafia.

Algumas das alterações mais marcantes foram a eliminação das consoantes que não se lêem e de alguns acentos, bem como a simplificação das regras de uso do hífen.

Tais alterações, porém, geraram mais confusão do que propriamente simplificação.

Contestação

Apesar de aprovado, o Novo Acordo Ortográfico deparou-se com uma onda enorme de contestação, incluindo alegações de inconstitucionalidade, com muitos estudiosos, académicos e profissionais das letras a recusar terminantemente aderir às novas normas e ainda hoje a escrever sob o velhinho Acordo de 1945.

A unificação perseguida é utópica, para além de desnecessária, as alterações do novo acordo dão azo a uma série de problemas linguísticos para os quais os especialistas ainda não encontraram resposta. A adição de regras facultativas e duplas grafias apenas veio agravar o problema e desfigurar ainda mais a nossa língua secular e tão rica.

Daqui se pode inferir, que muitas das alterações introduzidas foram elaboradas de forma negligente e inconsequente, e na prática, deram origem à profunda confusão e inconsistência que minaram tudo quanto tem sido escrito desde 2009 nos meios de comunicação social, na literatura, na legendagem, e até no ensino.

A Verbarium e o “Novo” AO

Na Verbarium, somos contra o Acordo Ortográfico de 1990 porque consideramos que a nossa língua é um bem histórico e cultural que deve ser preservado.

Como tal, todo o conteúdo escrito que produzimos para o nosso website, redes sociais, blogue e comunicações, marca a nossa posição seguindo as normas do mais sensato e amplamente conhecido Acordo Ortográfico de 1945.

No entanto, todos os projectos que aceitamos são tratados em conformidade com as preferências do cliente, portanto, aplicamos sim as regras do Novo Acordo, sempre que o cliente assim o pretenda.

Somos especialistas na tradução e revisão de textos com o AO de 1990 e, quando pedido, usamos com correcção as regras estabelecidas — com as quais não concordamos, mas que sabemos aplicar devidamente.

Inclusivamente, elaborámos materiais internos que nos permitem resolver as inconsistências de traduções recebidas de outras fontes desde a implementação do novo acordo.

Porquê?

Porque a nossa prioridade é, em última instância, a satisfação do cliente, acima das nossas convicções pessoais sobre o tema.

Com ou sem o Novo Acordo, não hesite em recorrer aos nossos profissionais para as suas traduções. Contacte-nos!

 

* Timor Leste entrou na CPLP apenas em 2002, aquando da sua independência, e a Guiné-Equatorial só se juntou aos restantes estados em 2014.

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Aqui, exploramos temas que nos são queridos e relevantes. Sérios, mas com um toque de humor e apimentados pela nossa paixão pela escrita! Conheça-nos “nos bastidores” e partilhe a sua opinião através dos comentários!

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