Ninguém se sente preparado. Estar preparado não é um sentimento. É uma decisão.
Durante muito tempo, escrevi para clientes — copywriting, marketing, SEO… Aqui, escrevo como Sónia. Não como tradutora, nem como copywriter. Apenas como pessoa.
Há uma frase de C. S. Lewis de que sempre gostei:
“As dificuldades preparam as pessoas comuns para um destino extraordinário.”
Nem sempre concordo com a ideia de “destino”, mas gosto daquilo que está por detrás: muitas vezes, só conseguimos perceber o sentido de uma mudança quando já estamos muito mais à frente no caminho.
Gostamos de acreditar que, um dia, vamos acordar e sentir-nos corajosos. Que a confiança vai chegar de um dia para o outro, que a certeza vai finalmente falar mais alto do que a dúvida e que, de alguma forma, vamos saber que chegou a altura certa, sem hesitações.
Mas quase nunca é assim. Passamos grande parte da vida à espera que o medo desapareça antes de darmos o primeiro passo. O problema é que o medo nunca teve intenção de ir embora, está apenas à espera para ver se avançamos, ainda assim.
O estranho na mudança é que, normalmente, não temos medo daquilo que vem a seguir, temos medo daquilo que vamos ter de deixar para trás.
Seja a identidade que construímos, as rotinas que dão forma aos nossos dias ou as pessoas que caminharam ao nosso lado durante anos… Até a infelicidade pode tornar-se estranhamente confortável quando vivemos com ela tempo suficiente. O que é familiar tem uma capacidade incrível de se fazer passar por segurança.
A nossa mente prefere um desconforto previsível a uma possibilidade incerta. É um instinto humano muito antigo.
Durante milhares de anos, a incerteza podia significar perigo. Hoje, a incerteza pode significar simplesmente uma nova carreira, mudar para outra cidade, terminar uma relação, começar nova, ou permitir-nos ser a pessoa que nunca fomos antes. O nosso cérebro nem sempre consegue distinguir uma coisa da outra. Apenas percebe que o “mapa” desapareceu — e ter um mapa é aquilo que nos faz sentir seguros.
Sei-o porque, há não muito tempo, dei por mim a olhar para uma paisagem completamente desconhecida.
Durante um quarto de século, trabalhei ao lado de alguém que se tornou muito mais do que uma parceira de negócio. Quinze desses anos foram passados a construir a Verbarium — uma empresa que não era apenas um local de trabalho, mas uma parte da nossa identidade. Cada projecto, cada cliente, cada conquista tinha aquele ritmo reconfortante que vem da familiaridade e da sensação de segurança.

Então, quase de um dia para o outro, tudo mudou. A minha colega, que era também CEO da empresa, já não se sentia feliz a fazer aquilo que fazíamos. Precisava de um novo começo, disse-nos. E, de repente, senti o chão desaparecer debaixo dos meus pés. Fiquei completamente dominada pelo medo. Durante meses, preocupei-me e esperei que ela voltasse a encontrar satisfação no trabalho e que, de alguma forma, as coisas voltassem a ser como sempre tinham sido. Mas, no fundo, eu já sabia que nada voltaria a ser como dantes.
Até que, um dia, abri o e-mail para começar o meu dia de trabalho, como todos os outros dias há mais de duas décadas, e encontrei uma pergunta dirigida a mim e à minha outra colega: aceitariam ficar com a empresa?
A estrutura em que eu confiava tinha desaparecido. A certeza que eu tomava como garantida tinha-se desvanecido.
Decidimos continuar como freelancers, porque seria mais fácil lidar com os desafios do mercado da tradução pós-IA. Contudo, iríamos comprar a marca que tínhamos ajudado a criar e a fazer crescer, juntamente com o site e a presença nas redes sociais, e continuaríamos juntas, enquanto profissionais independentes, sob o mesmo nome, já estabelecido.
Não vou fingir que não tive medo. Estávamos as duas aterrorizadas. De repente, tive de redefinir não só o meu trabalho, mas também quem eu era profissionalmente. Houve momentos em que o desconhecido parecia demasiado grande. Momentos em que me perguntei se recomeçar aos cinquenta e poucos anos era um ato de coragem… ou de loucura.
O medo tem uma maneira muito convincente de criar dúvidas. E se isto não resultar? E se eu não tenho mais nada para oferecer na área? E se for tarde demais para um recomeço?
A questão é que… raramente é o medo que faz as perguntas que realmente importam.
E se isto for o começo de algo melhor?
E se aquilo que estamos a perder estiver simplesmente a abrir espaço para aquilo que estamos prestes a construir?
À medida que as semanas foram passando, aconteceu uma coisa inesperada. Trabalhar lado a lado com a Eliane de uma forma completamente nova permitiu-nos descobrir forças uma na outra que sempre tinham estado ali, discretamente à espera do momento certo.
E, à medida que fomos colocando mais de nós neste projecto, percebemos que não estávamos a tentar recriar o passado. Nem queríamos. Estávamos a criar uma coisa diferente: uma coisa nossa.
As nossas competências complementavam-se de forma natural. Quando uma hesitava, a outra encontrava confiança. Quando uma se concentrava na precisão, a outra trazia criatividade. Não tínhamos planeado aquele equilíbrio — ele simplesmente aconteceu.
Aos poucos, a Verbarium começou a respirar de novo. Não como a empresa que tinha sido, mas como algo que se reencontra e se renova. A Verbarium tinha sido um bom lugar para trabalhar, tinha sido uma empresa de sucesso.
Mas decidimos recomeçar com a nossa própria voz. Precisávamos de mudar um pouco o foco e adaptar-nos aos tempos que estamos a viver.
Por isso, renovámos o site, as nossas publicações nas redes sociais e a newsletter e, devagar, mas com consistência, voltámos a dar vida à Verbarium com uma energia nova. Mais leve, mais autêntica e mais próxima das pessoas. Pessoal, em vez de corporativa.
Com uma imagem renovada, uma voz nova e uma parceria construída não pelo hábito, mas pela confiança mútua e por um propósito partilhado.
Quando olho para trás, percebo que não estava apenas de luto por uma empresa. Estava de luto por uma versão de mim própria.
E talvez seja isso que tantos de nós não entendemos sobre a mudança. Às vezes, não precisamos de substituir a vida que tínhamos. Precisamos de nos permitir crescer para além dela.
A vida já me obrigou a mudar de muitas maneiras. Algumas mudanças chegaram devagar e em silêncio, outras chegaram como uma explosão, sem aviso. Algumas foram profundamente pessoais, tocando as pessoas que amo, a minha saúde, o meu sentido de segurança e os planos que julgava estarem definidos para sempre.
Nenhuma delas foi uma mudança que eu tivesse escolhido. E, no entanto, cada uma, à sua maneira, insistiu suavemente em ensinar-me a mesma coisa: nada do que está verdadeiramente vivo permanece igual.
Talvez seja por isso que o mar sempre me fascinou. Quando estamos à beira-mar, só conseguimos ver a superfície. Por baixo dela existe um mundo de mistério e profundidade. É assustador, mas de uma beleza imensa.
Não sabemos onde cada caminho vai dar, nem o que vamos encontrar. E, no entanto, ninguém espera conseguir ver a viagem inteira antes de dar o primeiro passo.
A vida pede-nos exactamente esse tipo de confiança. Não certeza, mas coragem para continuar a avançar.
O curioso é que todos os capítulos importantes das nossas vidas começaram por nos assustar.
O primeiro dia de escola.
O primeiro emprego.
A primeira casa.
O primeiro amor.
A primeira desilusão amorosa.
O primeiro adeus que nos transformou irremediavelmente.
E, no entanto, quando olhamos para trás, esses momentos já não nos parecem assustadores. Passaram simplesmente a fazer parte de nós.
O medo tem uma maneira curiosa de funcionar. Faz com que cada porta ainda fechada pareça maior e mais assustadora do que realmente é. Depois atravessamo-la e, de repente, é apenas mais uma divisão.
Talvez a coragem nunca tenha sido não sentir medo, mas simplesmente não deixar que o medo decida por nós. Há uma diferença entre ficar onde estamos porque parece mais seguro e arriscar construir uma vida que, um dia, pode até surpreender-nos.
Não é inteligência nem sorte, nem sequer é confiança. É estar disposto a entrar num futuro que ainda não se revelou.
Nenhum de nós sabe o que o amanhã vai trazer e talvez essa incerteza não seja um defeito da vida, mas uma das melhores coisas que ela tem.
Se já conhecêssemos de antemão todas as alegrias, amizades, oportunidades, e todas as versões de nós próprios que nos esperam mais à frente, já não haveria nada por descobrir. Nada de novo para nos maravilhar, nada em que nos pudéssemos tornar. Talvez seja por isso que a vida só nos mostra o próximo passo. Não porque queira pôr-nos à prova, mas porque nos pede que confiemos em nós próprios.

Um dia, vamos olhar para trás, para a pessoa que hesitou durante tanto tempo, e vamos olhar para ela com ternura, porque vamos perceber uma coisa que, naquela altura, aquele “eu” não podia saber: vida que tanto medo lhe dava começar, acabou por se tornar a vida sem a qual já não conseguia imaginar-se. E talvez percebamos também que a mudança não veio apagar a nossa história, mas sim dar-nos um capítulo que nunca teríamos ousado escrever para nós próprios.
Seria fácil dizer: “A Verbarium continua”. Mas não continua. E acho que isso é uma coisa boa.
A antiga Verbarium pertence a um capítulo importante da vida de duas profissionais, duas mulheres, duas mães. A nova não é uma cópia do que existia antes, quando éramos três. Essa Verbarium, de facto, não existe mais. E a nova Verbarium é uma evolução, conduzida por duas pessoas que já se conheciam, mas que passaram a conhecer-se de uma forma mais profunda. Duas pessoas que aprenderam a trabalhar de maneira diferente e descobriram que as suas diferenças podem ser uma força.
Esta é uma história de renovação, não de nostalgia. Como quase tudo na vida. Por isso, quando a mudança lhe vier bater à porta, não tenha medo, arrisque!
Leia mais sobre o tema:
https://www.psicanaliseclinica.com/medo-de-mudancas/
https://www.ibccoaching.com.br/artigos-ibc/mudanca-de-vida/dicas-superar-medo-mudancas/
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