Quem sou eu?
Há um tipo muito particular de felicidade em olhar à nossa volta e reconhecermo-nos na vida que construímos.
Não a versão de nós que achamos que deveríamos ser. Não a pessoa que imaginávamos vir a ser há dez ou vinte anos. Nem sequer necessariamente a pessoa que os outros vêem, simplesmente nós.
Acho que subestimamos o quanto das nossas vidas pode ser construído à volta de coisas que, na verdade, nunca escolhemos verdadeiramente.
A roupa que usamos porque dizem que nos favorece, os móveis que compramos porque ficam bem, o emprego que achamos que deveríamos querer, os lugares onde vamos porque toda a gente parece adorá-los, os hobbies que adoptamos porque nos fazem sentir que somos o tipo de pessoa que gostaríamos de ser.
Não há nenhum drama nisso. Talvez seja precisamente por isso que é tão fácil não nos apercebermos. Podemos construir uma vida bastante agradável a partir dos ideais dos outros. E, durante algum tempo, podemos até ser bastante felizes nela. Até que algo muda.
Talvez mudemos de casa ou de emprego, ou talvez nos tornemos pais ou percamos alguém que amávamos. Ou talvez simplesmente envelheçamos e percebamos que as coisas que antes nos importavam já não têm o mesmo peso.
Ou talvez não aconteça absolutamente nada e, um belo dia, acordamos e percebemos que temos andado a manter uma versão de nós próprios que ficou para trás — ou que, na verdade, nunca foi a nossa.
Já me aconteceu sentir isso com coisas surpreendentemente pequenas, como uma peça de roupa que durante anos pareceu completamente “a minha cara” e, de repente, deixou de parecer. Todos nós conhecemos essa sensação. Uma divisão da casa que decorámos há anos começa a parecer o cenário da vida de outra pessoa, coisas que em tempos desejámos desesperadamente já não nos despertam qualquer interesse e até certas rotinas podem transformar-se em pequenos vestígios estranhos da pessoa que costumávamos ser.
E há qualquer coisa de desconcertante nisso, porque tendemos (ou necessitamos) a pensar na identidade como algo imutável.
Isto é aquilo de que gosto, é isto que eu sou, este é o meu gosto.
Mas tudo se move, tudo muda. Talvez o gosto seja menos como algo definido e mais como um diário que vai mudando à medida que nós mudamos.
E talvez uma das razões pelas quais pode ser tão difícil perceber o que realmente queremos seja o facto de termos passado grande parte da vida a aprender a querer sempre mais.
Dos filmes de Hollywood à publicidade, às revistas, à televisão, às redes sociais e, mais recentemente, aos influenciadores, somos constantemente expostos a imagens de casas bonitas, corpos perfeitos, férias caras, relações perfeitas, carreiras de sucesso e vidas que parecem estar sempre um passo à nossa frente.

Não ponderámos nem decidimos que é essa a vida que queremos, não necessariamente. Acontece de uma forma muito mais dissimulada. Vemos aquelas imagens uma vez, e outra, e outra, até começarem a parecer-nos normais. Até aquilo que é extraordinário passar a ser a fasquia impossível pela qual medimos as nossas próprias vidas.
A psicologia tem um nome para uma parte do que acontece aqui: comparação social ascendente.
Quando nos comparamos repetidamente com pessoas que parecem ter mais, ser mais bonitas ou estar a ter mais sucesso do que nós, a distância entre as vidas criteriosamente apresentadas por essas pessoas e as nossas vidas perfeitamente comuns pode começar a parecer uma falha pessoal.
A investigação tem associado este tipo de comparação à inveja, a uma menor auto-estima, à ansiedade, a sintomas depressivos, à insatisfação com o corpo e a uma diminuição do bem-estar geral.
E há algo particularmente insidioso nas redes sociais: estamos a comparar toda a nossa existência — confusa, imperfeita e não editada — com os melhores momentos editados da vida de outra pessoa.
Esquecemo-nos de que não estamos a ver a realidade e sim uma selecção da realidade. Uma fotografia, uma publicação patrocinada, umas férias, um carro novo, uma cozinha perfeita, uma persona cuidadosamente construída. Só vemos o resultado, não vemos as dívidas, as inseguranças, as relações falhadas, as tardes de terça-feira perfeitamente banais ou as dez fotografias que foram descartadas antes de a fotografia perfeita chegar às redes sociais.
E, ainda assim, o nosso cérebro nem sempre faz essa distinção. Depois da exposição massiva a que estamos sujeitos, estas imagens podem transformar-se silenciosamente em padrões. Começamos a acreditar que precisamos de uma casa maior, um corpo melhor, dentes mais bonitos, menos rugas, mais dinheiro, uma carreira mais emocionante, mais experiências, mais tudo…
E talvez a pergunta mais desconfortável que podemos fazer a nós próprios seja: até que ponto aquilo que ambiciono é realmente o que eu quero?
A Matrix está mais perto do que pensamos
Há pessoas convencidas de que vivemos numa simulação.
A ideia existe há muito tempo na filosofia e ganhou particular popularidade, na sua forma moderna, com o chamado argumento da simulação, que questiona se a nossa própria realidade poderá ser uma simulação artificial. Não existem provas sólidas de que seja esse o caso e, certamente, não estou a sugerir que vivemos todos secretamente dentro de um gigantesco programa de computador! Mas, às vezes, pergunto-me se não haverá outro tipo de simulação em que nos colocamos voluntariamente.
Não uma Matrix em que máquinas controlam os nossos corpos, mas uma muito mais furtiva, feita de expectativas. Absorvemos as definições dos outros sobre sucesso, beleza, riqueza, felicidade e realização de forma tão gradual que deixamos de reparar de onde vieram.
Comparamo-nos com vidas que nunca sequer foram reais e depois passamos anos a tentar fazer com que as nossas se pareçam com elas. Seguimos regras que ninguém nos impôs explicitamente e perseguimos objectivos que nunca escolhemos conscientemente. Medimo-nos com base em padrões criados por pessoas que não fazem ideia de quem somos. E talvez essa seja a simulação mais convincente de todas: uma vida que parece nossa, que sentimos como nossa, mas que foi silenciosamente programada por toda a gente menos por nós.
A estranha arte de nos tornarmos nós próprios
Falamos muito em “encontrarmo-nos”, como se existisse dentro de nós uma pessoa completamente formada, à espera de ser descoberta. Não acho que isso funcione assim.
Acredito que nos vamos criando pelo caminho, através de centenas de pequenas decisões. Algumas conscientes, outras acidentais, outras que fazem todo o sentido no momento em que as tomamos e outras ainda que só conseguimos compreender anos mais tarde.
Fazemos um novo corte de cabelo, mudamo-nos para outro lugar, alteramos a forma como trabalhamos. Descobrimos uma banda que passa a fazer parte da banda sonora de uma determinada fase da nossa vida. Deixamos de tolerar coisas que antes aceitávamos e começamos a interessar-nos por coisas que, anteriormente, teríamos achado aborrecidas. Nenhuma destas coisas parece particularmente importante por si só. Mas, todas juntas, vão mudando a forma da nossa vida.
E, às vezes, o sinal mais evidente de que mudámos não é passarmos a querer algo diferente e sim simplesmente deixarmos de sentir necessidade de explicar porquê.
Provavelmente, tempos houve em que tínhamos boas razões por trás de todas as escolhas que fazíamos. Sabíamos exactamente a razão pela qual nos vestíamos de determinada maneira, por que trabalhávamos daquela forma, por que decorávamos a nossa casa assim, por que passávamos o nosso tempo livre de uma certa forma…
Até que, um dia, percebemos que estamos a fazer algo simplesmente porque sempre o fizemos — ou porque toda a gente à nossa volta também faz. E talvez seja aí o início de algo.
A nossa casa sabe
Acho que as nossas casas são particularmente boas a expor estas coisas.
Podemos entrar numa divisão e encontrar várias versões de nós próprios ao mesmo tempo. Há aquele objecto que comprámos porque gostámos genuinamente dele, o que comprámos porque era prático, o que comprámos porque estava na moda e aquele que herdámos. E há também aquele de que tínhamos a certeza que iríamos gostar para sempre e de que, agora, já não gostamos assim tanto.
Depois existem as coisas que mantemos porque deitá-las fora significaria admitir que mudámos.
Acho que não se fala o suficiente sobre esta parte. Organizar e destralhar a casa é muitas vezes apresentado como um exercício prático: fique com aquilo que usa, livre-se daquilo que não usa. Mas, às vezes, a pergunta difícil não é: “Uso isto?” e sim “Isto ainda faz parte de mim?” E há uma diferença.
Gosto da ideia de que uma casa não tem de impressionar ninguém e nem sequer precisa de fazer sentido para os outros. Deve reflectir a personalidade das pessoas que lá vivem. A minha casa é, de certa forma, única, e as pessoas comentam frequentemente que ela reflecte quem eu sou. Não dizem que gostariam de ter uma casa igual à minha, mas quase toda a gente diz que é “mesmo a minha cara” e fico contente.
O objecto ligeiramente ridículo que comprei porque me fez rir, todos os livros que sobreviveram a várias mudanças de casa ou a peça de mobiliário que é definitivamente demasiado velha, mas absurdamente confortável e a obra de arte estranha que provavelmente faria muito pouco sentido na sala de outra pessoa…
São essas coisas que fazem uma casa parecer habitada, vivida. Mais importante ainda, fazem com que pareça SUA.
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