Na primeira parte desta reflexão, perguntava-me até que ponto a vida que construímos resulta realmente das nossas próprias escolhas e até que ponto terá sido imperceptivelmente moldada pelas expectativas que nos rodeiam. Estamos constantemente expostos a imagens de sucesso, beleza, riqueza e felicidade que podem fazer com que uma vida perfeitamente normal nos pareça, de alguma forma, insuficiente. E até começamos a perseguir objectivos que nunca escolhemos conscientemente.
Talvez o primeiro passo para construirmos uma vida que se pareça connosco seja reconhecer essas influências e questioná-las. Porque, quando deixamos de tentar viver de acordo com a definição de outra pessoa daquilo que deve ser uma boa vida, ficamos perante uma questão mais profunda: afinal, o que seria uma boa vida para nós?
Nesta segunda parte, quero levar essa pergunta um pouco mais longe e olhar para o que acontece quando deixamos de representar para o mundo exterior e começamos a prestar atenção às coisas que genuinamente nos fazem sentir em casa na nossa própria vida.
O luxo de não ter de representar
Talvez seja isto que ganha importância à medida que envelhecemos: preocuparmo-nos menos com o facto de a nossa vida fazer sentido para quem a observa de fora.
Não no sentido de “não quero saber do que os outros pensam”, porque a maioria de nós continua a importar-se. Somos humanos. Mas há uma diferença entre preocuparmo-nos com aquilo que os outros pensam e organizarmos a nossa vida inteira à volta da necessidade de sermos compreendidos pelo mundo lá fora.
Não temos de transformar cada interesse numa identidade, ser produtivos a toda a hora, transformar os nossos hobbies em fontes de rendimento, ter o gosto “certo”, fazer com que a nossa casa pareça saída de um catálogo nem sermos sempre coerentes.
Talvez hoje adoremos uma coisa que daqui a cinco anos vamos detestar, e não faz mal. Talvez uma das coisas mais bonitas de termos uma vida que é verdadeiramente nossa seja precisamente esta: podemos sempre mudar de ideias.
Camadas…
Talvez seja precisamente por isso que, por vezes, temos a sensação de não nos reconhecermos completamente em determinadas situações. Não porque estejamos a fingir, mas porque cada contexto pode trazer à superfície uma parte diferente de nós. Há a versão mais responsável, a mais espontânea, a mais reservada, a mais corajosa, a que precisa de controlo e a que só quer deixar-se levar. Algumas destas facetas podem até parecer contraditórias, e não há nenhum problema nisso. Não precisamos de escolher qual delas é a “verdadeira”. O importante é perceber quando cada uma aparece, o que nos está a tentar dizer, e se ainda nos faz bem. Em vez de lutarmos contra as nossas diferentes versões, talvez devêssemos aprender a ouvi-las, escolher conscientemente quais queremos levar connosco para o futuro, e aceitar que somos a soma de todas as partes.
O que é que, afinal, se parece consigo?
Às vezes penso que a melhor pergunta não é “Que tipo de vida quero?”. É uma pergunta muito mais pequena: “O que é que se parece comigo?”
Então, vamos fazer isto juntos.
Pergunte-se: que música ponho quando ninguém está a ouvir? O que compro quando não estou a tentar impressionar ninguém? Que tipo de noite gosto realmente de passar? Que roupa me faz sentir confortável, em vez de apenas apresentável? Como quero sentir-me quando entro em casa? Sobre o que tenho curiosidade quando ninguém me paga para ser curioso(a)?
E, talvez mais importante do que tudo: o que tenho mantido na minha vida simplesmente porque pertence a uma versão mais antiga de mim?
Não tem de haver uma resposta dramática. Às vezes, a resposta é apenas um candeeiro, um casaco ou uma manhã de sábado passada a não fazer absolutamente nada de útil.
Outras vezes, é uma decisão profissional, uma amizade ou simplesmente admitir que aquilo que um dia quisemos já não é aquilo que queremos.
Nada disto significa que a nossa versão antiga estivesse errada. Era simplesmente a nossa versão presente naquele momento. E foi essa versão que nos trouxe até aqui.
Talvez isto seja suficiente
Durante muito tempo, perguntei-me se não deveria querer mais. Não necessariamente mais coisas, mas mais no sentido em que costumamos falar de ambição. Soa a defeito quando ouvimos falar de falta de ambição…
Será que eu deveria querer mais, querer coisas maiores, conquistar mais — não porque eu realmente as queira, mas porque é assim que se espera que uma pessoa realizada e bem-sucedida seja?
Costumava perguntar-me se haveria alguma coisa errada comigo por não sonhar com essas coisas. Talvez não fosse suficientemente ambiciosa e talvez me tivesse acomodado demasiado. Estaria simplesmente a conformar-me?
Aos 53 anos, a maturidade permite-me reconhecer a diferença entre acomodação e contentamento. Não são a mesma coisa.
“Acomodarmo-nos” parece fazer-nos mais pequenos por termos medo de estender a mão a outras coisas. O contentamento, pelo contrário, parece-se mais com finalmente percebermos qual é a dimensão da vida que realmente queremos e precisamos.
E descobri que aquilo que eu quero é, na verdade, bastante simples.
Quero uma casa pequena, mas acolhedora. Uma casa que se pareça comigo quando entro pela porta, cheia das coisas de que gosto e sem qualquer preocupação em saber se outra pessoa a decoraria da mesma maneira. Quero saber apreciar as coisas simples e boas da vida. Alguns bons amigos, em vez da vida social agitada que tive no passado sem que nenhuma das muitas amizades fosse substancial. Tempo para desfrutar da minha família. Muito tempo! Os meus sobrinhos e, sobretudo, a minha neta, que ainda é bebé e que, de alguma forma, consegue transformar um momento perfeitamente banal em qualquer coisa de extraordinário.
Quero aproveitar ao máximo estes últimos bons anos com os meus pais, os meus sogros e os meus tios e tias, que estão a envelhecer a um ritmo cada vez mais rápido, tornando mais palpável, a cada ano que passa, a sensação de que não estarão comigo para sempre.
Chegar a esta idade torna o tempo muito mais visível. Começamos a perceber que alguns momentos não são infinitamente renováveis, e isso torna-os ainda mais preciosos.
Em suma, quero ter tempo. Tempo para noites tranquilas com os meus cães, a ver os meus filmes de terror ou vídeos de true crime no YouTube. Quero ler enroscada no sofá, confortável e completamente improdutiva. Quero ter aquelas conversas filosóficas com o meu filho que começam por qualquer coisa banal e acabam num debate que nenhum de nós esperava.
Quero aqueles pequenos momentos de ternura com a minha neta. Quero passear no parque, junto ao lago. Quero sentar-me numa esplanada aos fins de semana a falar de coisas que não têm particular importância e desfrutar simplesmente do facto de não haver nenhum outro lugar onde precise de estar. E quero continuar a trabalhar como tradutora, com a equipa da Verbarium, a fazer exactamente o tipo de trabalho de que gosto.

E deixem que vos diga, quando junto tudo isto, não vejo uma vida pequena. Vejo a minha vida, a vida que quero. E, provavelmente, é essa a questão. Passamos tanto tempo a ser incentivados a sonhar mais alto que raramente paramos para perguntar se mais alto é, de facto, melhor para nós.
A ambição nem sempre tem de significar expansão. Às vezes, ambição é proteger o que já construímos. Manter a família por perto, arranjar tempo para as pessoas que amamos, fazer um trabalho de que gostamos genuinamente mesmo que não nos renda uma fortuna, ter uma casa que nos faz sentir em casa. Ter o suficiente e saber do que já não precisamos.
Aos 53 anos, não quero uma vida diferente. Não quero mais coisas, mais status, mais ruído ou uma versão mais impressionante de mim própria. Quero isto. Quero que esta vida simples continue durante muitos, muitos anos. E não sinto necessidade de pedir desculpa por isso. Não quero mais da vida do que aquilo que já tenho e está tudo bem.
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