A generalização do teletrabalho e o isolamento

O ano 2020 estava apenas a começar quando o mundo parou repentinamente e os governos decidiram impor medidas drásticas para impedir o caos no sistema de saúde.

No nosso país, o teletrabalho já era utilizado, mas por períodos limitados (por exemplo, alguns dias por semana) e voluntariamente, mediante acordo entre o trabalhador e a entidade empregadora.

Um pouco por todo o planeta, para evitar um caos a nível sanitário, os governos procuraram garantir o distanciamento físico, fechando estabelecimentos de ensino e fronteiras, cancelando voos, proibindo quaisquer eventos que implicassem ajuntamentos e encerrando várias empresas cuja actividade fosse considerada “não essencial”.

O desafio enfrentado pelos decisores políticos era como “fechar portas” sem causar danos irreparáveis à economia, uma vez que este fecho implicaria grandes perdas de receita. Nesta linha, foram impostos regimes de teletrabalho a tempo inteiro, que muitas empresas começaram a ponderar manter para além desta crise sanitária, ao verificar que acarretava vantagens também para o empregador.

Ao contrário de muitos tradutores, que são ou já foram freelancers, a esmagadora maioria dos trabalhadores não possuía qualquer experiência prévia de teletrabalho.

Numa fase inicial, a ideia de trabalhar sem ter de sair de casa parecia apelativa a muitas pessoas… mas rapidamente se transformou num pesadelo para tantos!

Para muitos, trabalhar em casa parecia uma excelente oportunidade para passar mais tempo com a família ou uma maior flexibilidade para tratar de assuntos da sua vida pessoal.

Na realidade, grande parte dos trabalhadores em teletrabalho, durante os períodos de confinamento, tinham os filhos também sem aulas e não conseguiam conciliar o trabalho com o facto de terem as crianças presentes.

Quem tem filhos sabe bem que trabalhar com crianças em casa pode constituir um obstáculo insuperável.

Solidão

Por outro lado, para muitos trabalhadores, trabalhar sozinho implica não ter qualquer orientação ou apoio de colegas e superiores na realização do trabalho, não saber como resolver problemas específicos, não ter um método pessoal de organização do trabalho agora que deixaram de estar condicionados pelos procedimentos implementados nos seus locais de trabalho, etc.

Para quem vive sozinho, trabalhar em casa acarreta ainda mais isolamento e solidão. A diminuição das interacções sociais e o isolamento prejudicam a saúde mental daqueles que não podem conviver directamente com os colegas em escritórios físicos e vêem limitadas as suas deslocações para fora de casa.

Com efeito, quando se trabalha no lar — mesmo sem as imposições do confinamento e com liberdade para sair e socializar — a interacção social com os outros requer um maior esforço e exige boas capacidades de planeamento e organização.

Para tantos outros, o teletrabalho implicou terem de lidar com ferramentas tecnológicas com as quais não estavam minimamente familiarizados. Obviamente, tudo isto resulta em atrasos que fazem com que as pessoas acabem por passar muito mais horas na frente do ecrã do que no seu horário de trabalho habitual fora de casa.

Basicamente, teletrabalho define-se como o uso das tecnologias da informação e comunicação, tais como smartphones, tablets, computadores portáteis e de secretária para realizar o trabalho fora das instalações da entidade empregadora.

É aqui que entram todas as aplicações e ferramentas criadas especificamente para a comunicação: o Skype, Zoom, Google Hangout, WhatsApp, etc. permitem o envio de mensagens e possibilitam fazer videochamadas com familiares, amigos, e também com os nossos colegas de trabalho.

Podemos, então, tirar o máximo partido destas mesmas ferramentas de comunicação que todos temos ao dispor actualmente para fazer frente ao isolamento: tanto relativamente aos nossos entes queridos, porque passamos muitas horas em frente ao ecrã sem poder dar-lhes a atenção merecida; como aos nossos colegas de trabalho, com os quais tantas vezes necessitamos de comunicar para esclarecer dúvidas, obter apoio, etc.

Se antes desvalorizávamos o peso que alguns breves momentos de socialização têm na nossa saúde emocional, cedo começámos a compreender a dimensão da interacção humana, mesmo a mais banal, quando trabalhamos a partir de casa.

Neste sentido, a comunicação entre colegas não deve limitar-se às tarefas profissionais concretas, mas deve incluir também os aspectos sociais do trabalho, criando oportunidades para criar vínculos além das obrigações laborais.

Muitas empresas já tinham implementado eventos corporativos para fins de socialização entre os seus membros, porém, uma vez que as regras do distanciamento físico não permitiam este tipo de convívios, a resposta teve de passar por melhorar a qualidade da comunicação via internet.

A comunicação pode fazer a diferença para quem sofre de isolamento ou de ansiedade devido ao confinamento e ao teletrabalho, porém, é igualmente importante encontrar um equilíbrio, limitando as interacções sociais com colegas ao horário normal de trabalho, para evitar esbater ainda mais a fronteira entre o tempo de trabalho e o tempo pessoal.

Com efeito, um dos aspectos mais negativos decorrentes do teletrabalho pode ser a dificuldade em “desligar” do trabalho para descansar e passar tempo com a família e amigos, o que aumenta os sentimentos e a ideação negativa, a fadiga e a irritabilidade, com a consequente redução do desempenho, que pode, por seu turno, obrigar a períodos ainda mais longos de trabalho — um circulo vicioso muito perigoso para a saúde, tanto física como psicológica.

Uma vez que o nosso lar passa a ser, simultaneamente, o nosso local de trabalho, os desafios relacionados com delinear limites entre o tempo de trabalho e o tempo pessoal criam um grande conflito entre a vida profissional e pessoal.

Isto é ainda mais complexo para quem tem crianças a cargo, e mais ainda quando se trata de crianças em idade escolar, que também se encontravam em telescola.

Adicionalmente, ao não ter de sair de casa diariamente para se deslocar para o local de trabalho, e porque as características ergonómicas do mobiliário que possuímos em casa não são as mais indicadas, o trabalhador passa a ter um comportamento bastante sedentário e com posturas incorrectas.

Passar horas na mesma posição, sem se movimentar — para muitos, sentados frente a um computador portátil numa mesa de cozinha — amplia exponencialmente o risco de perturbações musculoesqueléticas, de diminuição da acuidade visual, doenças cardíacas e até obesidade.

Ao trabalhar a partir de casa, as pessoas devem ser encorajadas a colaborar com os colegas utilizando as ferramentas de comunicação ao dispor para partilhar informações, dar feedback, dividir esforços, etc.

Um ponto positivo do teletrabalho imposto pela crise social e sanitária foi o aumento da comunicação entre a gestão e os funcionários das empresas, com vista a gerir todas estas questões, mantendo um fluxo eficiente de comunicação, colaboração e feedback.

É essencial que os funcionários comuniquem aos colegas/supervisores caso se sintam sobrecarregados, permitindo reorganizar a distribuição de tarefas a fim de evitar o risco de burnout.

Agora mais do que nunca, a comunicação deve ser clara e concisa a fim de evitar problemas de interpretação, que, potencialmente, conduziriam a esforços adicionais desnecessários para o trabalhador e para a equipa.

É também útil determinar de que forma as pessoas organizam o seu trabalho em casa e quais as alturas do dia em que se sentem mais energizadas e focadas — pois são estas as alturas em que serão mais produtivas e, em teletrabalho, pode ser muito útil elaborar um horário de trabalho que abranja estas horas de maior rendimento.

Last but not least, não devemos esquecer que o tempo offline é crucial para desenvolvermos um bom trabalho online! ????

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