Tecnologia: uma revolução ambígua Parte 2

A tecnologia mudou o mundo, então, porque haveria de ser diferente no que toca à indústria da tradução?

O progresso tecnológico mudou todos os aspectos da vida humana, desde a educação até à saúde, passando pela segurança, os serviços e o comércio até à socialização… Na maioria das vezes, as mudanças foram para melhor, mas nem sempre.

A tecnologia trouxe ainda mudanças significativas de perspectiva e abordagem à comunicação multilingue.

Por um lado, o benefício é mútuo: assim como a tecnologia beneficiou os profissionais de tradução, a tradução técnica também é vital para múltiplos campos da tecnologia — da construção e engenharia à automação e robótica.

Neste cenário global, a documentação empresarial, como contratos e outros documentos legais, e a documentação de produto, como patentes e manuais de instruções, requerem frequentemente tradução.

Por outro lado, a tecnologia é uma faca de dois gumes, e não, não estou a falar da “Singularidade” ou de uma Inteligência Artificial que se apodera do mundo e escraviza os humanos. 🤖 A realidade é que há prós e contras em todo o progresso tecnológico, e isto também se aplica ao impacto da tecnologia na tradução.

Como podemos ver, em centenas de anos, o cenário da tradução manteve-se sensivelmente inalterado, mas no último meio século passou por mudanças drásticas!

Não podemos sequer imaginar termos de trabalhar como São Jerónimo, confiando inteiramente na memória, numa pena, tinta e papel! 😅

Estamos extremamente bem equipados hoje.

Como os tradutores trabalham com computadores, o progresso tecnológico teve um efeito transformador em todos os serviços linguísticos, tais como a tradução e a localização, transcriação, interpretação, copywriting, etc.

Não há dúvida de que o uso de novas tecnologias na tradução se tem vindo a tornar gradualmente mais relevante, tornando o processo de tradução cada vez mais eficiente.

Basta podermos armazenar hoje em dia uma enorme quantidade de dados em casa, praticamente sem ocupar espaço, e aceder a um mundo de informação disponível online, para que a tradução tenha entrado numa era totalmente nova.

Se São Jerónimo soubesse! 😇

As “novas” tecnologias de tradução, e aqui estou a pensar especificamente nas memórias de tradução, facilitam o trabalho dos tradutores, ajudando-os a produzir grandes quantidades de trabalho num prazo relativamente curto.

Com ferramentas para cada uma das etapas do processo de tradução — da pesquisa e da tradução propriamente dita à revisão e garantia de qualidade — as ferramentas de gestão da tradução (TMT) não só ajudam o tradutor, acelerando todo o processo, como também beneficiam o cliente, melhorando a precisão e a consistência.

Isto permite uma melhor qualidade final, ao mesmo tempo que poupa tanto aos freelancers como às agências de tradução — e, em última análise, aos clientes — uma quantidade de tempo considerável, tempo este que, por seu turno, pode ser utilizado para aceitar mais trabalho e ganhar mais dinheiro!

A mudança assusta, mas faz falta

Anne Brontë disse: “quem não ousa agarrar o espinho, nunca deve desejar a rosa”.

É claro que todas as coisas possuem vantagens e desvantagens, e a mudança pode ser ao mesmo tempo excitante e perturbadora.

Yves Gambier, no seu artigo Impact of technology on Translation and Translation Studies, Universidade de Turku, concluiu que um mundo de grandes empresas e indústrias que requerem traduções em grande escala exige naturalmente prazos mais curtos e, inevitavelmente, custos reduzidos.

Stephen Doherty, em The Impact of Translation Technologies on the Process and Product of Translation, Universidade de Nova Gales do Sul, explica os efeitos de dois dos principais avanços tecnológicos na tradução: A tradução assistida por computador (Computer-assisted translation, CAT) e a tradução automática (Machine Translation, MT).

Até há relativamente pouco tempo, ao ouvir o termo “tradução automática” tanto clientes como tradutores torciam o nariz!

O termo não era entendido como um auxílio à tradução, uma vez que os clientes encaravam a MT de uma forma negativa por fornecer traduções de péssima qualidade, e os próprios tradutores viam-na como uma ameaça futura à sua própria relevância e existência como profissionais.

A MT consiste essencialmente em software que traduz automaticamente um texto sem qualquer intervenção humana. Na verdade, a tradução foi uma das primeiras aplicações informáticas nos anos 50, e a MT existe, ainda que de forma algo rudimentar, desde os anos 60!

Indesejadas e incompreendidas no início, estas duas tecnologias demonstraram afinal ser benéficas para os tradutores, melhorando a sua produtividade e a qualidade das suas traduções. Também demonstraram um impacto positivo no mundo em geral, ao melhorar a comunicação internacional e reduzir ainda mais as barreiras linguísticas, ajudando a aproximar as pessoas.

No entanto, apesar de não serem tão perigosas como foram inicialmente entendidas, e como Doherty bem notou, estas ferramentas representam grandes desafios e inseguranças para os tradutores profissionais e para a indústria da tradução.

Apesar de tornarem possível traduzir um maior volume de texto mais rapidamente, podem também colocar muita pressão sobre os profissionais, pois mudam a percepção dos clientes sobre quanto trabalho podem razoavelmente esperar de um tradutor, em quanto tempo e por que preço.

Grande parte dos clientes já não fazia ideia de que a tradução não se limita a traduzir directamente, palavra por palavra.

Os tradutores são profissionais qualificados e experientes que devem ser recompensados de forma justa pelo trabalho que fornecem e pelas horas que nele investiram. Na verdade, a tradução é um serviço moroso, composto por várias etapas:

  • todos os projectos devem ser revistos para detectar erros ou inconsistências;
  • a terminologia deve ser pesquisada e verificada — e possivelmente armazenada/gerida, para assegurar a consistência futura;
  • os tradutores devem melhorar continuamente as suas competências profissionais a fim de acompanhar as mudanças tecnológicas e os desenvolvimentos da indústria;
  • a pesquisa pode levar tanto tempo como o trabalho de tradução propriamente dito… e são apenas alguns exemplos.

Podemos dizer que a ideia errada que os clientes actuais possuem sobre as cat tools pode distorcer ainda mais a percepção do trabalho (e preços) de um tradutor.

Isto faz com que as pessoas se perguntem se valerá a pena pagar a um tradutor profissional por uma tradução de alta qualidade quando poderiam simplesmente obter uma tradução razoável por um preço muito baixo, ou mesmo de graça. Poderiam até fazê-la eles mesmos!

É claro que o barato sai caro, e recebem exactamente aquilo por que pagaram. E nem sequer vou entrar nos atributos fundamentais da sensibilidade e sensatez que as máquinas não possuem, nem no know-how e competências únicas de um profissional humano, ou na questão da relação custo-benefício. Isso é outra história — talvez para um artigo futuro! 😉

Por enquanto, não deixe de ler a 3.ª e última parte deste artigo!

Se gostaria de saber mais sobre este assunto, consulte as nossas sugestões de leitura (em inglês):

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